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CONVITE PARA O SEL#7!!!!!
Gente, gostaria de mais uma vez convidar todos para a sétima edição do Sarau Expressão Livre. Vai ser uma edição beeeeeem especial... A começar pelo convite chiquérrimo, criado pela designer oficial do SEL, minha amiga Vanessa, do estúdio Colletivo. Espero vocês lá!

Escrito por John às 18h13
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Valsinha, por Roberto Ponciano
E agora, a conclusão.
Valsinha - parte 2
Ana sentira falta dele estes vinte dias de férias. Na verdade ela se acostumara com ele. A presença sem contato físico. A dissimulação de ambos do interesse mútuo de um pelo outro. As discussões de trabalho intermináveis que substituíam palavras simples como "você é linda", ou "eu te amo". E eis que ele retorna. Mudado, vestido em mangas de camisa, em lugar do conservador terno com gravata. Barba mal-feita, expressão vagabunda no olhar. Ao chegar ela o cumprimenta com um bom dia e recebe de volta um "bom dia, você está mais linda do que nunca hoje", em alto e bom som, que surpreendeu toda o escritório e provocou os primeiros comentários maliciosos.
Durante o dia ele nunca desviou o olhar dela. Olhava profundamente nos olhos. Quando ela estava próxima, de forma intensa olhava para o vão dos seios e, quando ela se virava para sair, sentia-se envolvida com o olhar dele, que beliscava a bunda carnuda, redonda e dura dela. Ela sentia-se meio perdida por aquele assédio calado que ela sempre quis sofrer, mas que agora, de certa maneira a ofendia. Vinícius estava em plena caça. E ela acuada, não sabia como agir. Durante os últimos sete anos, tivera só um namorado da igreja, quatro anos de amofinação de um velho fanático que sofria de ejaculação precoce e com a qual chegou a casar com a bênção conservadora e neurótica de sua família. Só a religião fez com que aquela situação durasse quatro anos, ao fim deles, mais marcada e neurotizada, sem nunca ter gozado, sem saber o que era um orgasmo, mais medo ainda tinha dos homens. Mas Vinícius era algo que a envolvia. Ela sempre quisera no fundo que ele a cercasse, a cortejasse, a envolvesse, o olhar de menino pedinte, o desleixo negligente que se observava nele, mesmo quando arrumado, prometiam a ela que se fosse ele e não o obreiro brocha seu homem, ela teria sido feliz.
Quase no sim do expediente chegam flores, pelas e apaixonantes rosas vermelhas, que causaram alvoroço no serviço e que surpreenderam e gelaram a espinha dela. Num cartão muito bonito, bem escolhido, com motivos florais, havia apenas duas palavras: Te Amo, sem assinatura. Ela automaticamente olhou para ele. Não poderia ser outro, era óbvio. Sufocada, esteve por chorar, desarmada e sem saber o que fazer. Neste mesmo dia teria que novamente se reunir com ele para traçarem algumas metas agora que ele voltara de férias e ela temia e desejava isto. O que aconteceria? Pensava ela... E sua cabeça dava voltas e sua vista se turvava. As pernas bambearam e ela temeu desfalecer. E, se não fosse ele??? Se fosse outro... Aí seria pior... Ela temia, mas queria que fosse ele. Na verdade, nem sabia bem o que podia acontecer. O tempo passou, todos foram embora, no andar vazio, portas fechadas, só permaneceram ambos, como sempre. Só que, de todas as outras vezes, desejos negados, não estavam ali um homem e uma mulher, mais um chefe e uma gerente. Desta vez não. Antes que começassem a falar na reunião, Vinícius, de forma surpreendente, ligou um pequeno aparelho sonoro que ele mesmo trouxera e coloca Valsinha, música que ela desconhecia, mas que agora era o enredo daquela paixão:
"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, Olho de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar (...)" De forma surpreendente e abrupta, ele acolheu o corpo macio dela no seu e começou a dançar a música como se fosse valsa. Ana protestou, não quis. Vinícius estava sendo até um pouco rude, resolvido, apertou a mão dela e não aceitou recusa e ela foi dançando. Primeiro dura, protestando, depois se largando em passos harmônicos com ele, onde a cabeça dela se afundava no ombro dele e as coxas de ambos se entrelaçavam, fazendo com que um rio que há muito fora represado jorrasse como tormenta em busca do mar dela, da saída, da comunicação mais íntima do corpo dela. Ela ainda mais ficou assustada, mais a força daquele desejo terrivelmente era mais forte do que ela imaginara. O beijo primeiro foi conseqüência, doce, intenso, profundo, línguas de fogo enroladas, pernas enroscadas, corpos se roçando, dançando, no ritmo da música sem que eles percebessem. Ela murmurou:
-As rosas, o cartão...
-Eu sempre te amei - Ele respondeu.
Colheu nos braços e a sentou na mesa de reunião. Aquilo a reanimou a lutar... No trabalho... Ela sabia o que ele queria... Estava quase desfalecida, semi-entregue, mas a parte neurótica dela não queria a parte são aflorando assim... E o emprego? Sua moral? Seu pecado em estar ali, com aquele homem agarrando-se a ela e posicionando o corpo dele entre as coxas dela. Com as mãos ela tentou empurrá-lo. Vinícius estava resoluto. Não a machucaria, não forçaria, não seria um estupro, mas sabia, no fundo, que aquela mulher reprimida, tanto tempo negada em sua essência de mulher, precisaria de luta, de calor do corpo para aflorar, florescer e se entregar. Era uma luta não declarada. Sem golpes fortes. O corpo dele no meio das pernas dela, as mãos dela o empurrando, a boca fechada dela, a boca dele beijando o pescoço, mordiscando a orelha, palavras doces de amor, mordida na nuca, e aquela luta ia virando um jogo, tanto que, sem que percebesse, Ana o expulsava com as mãos e o enlaçava com as pernas. Até que os braços dela que antes expulsaram, agora acariciavam o cabelo daquele homem tão amado neste momento mais do que esperado. As bocas novamente unidas perderam-se em dezenas de beijos. Sentada, com as pernas trançadas nele, ela nem mais parecia aquela crentezinha reprimida, pelo contrário, uma tigresa saltava de dentro de seu peito e ia tomando conta de seus atos. Sentia sua xoxota molhada, jorrando, esperando ser comida pela primeira vez com competência e ansiava. Vinícius, de forma áspera, mais carinhosa, já subira o vestido, e baixara as alças. Brincava nos mamilos dela, beijava-os, sugava, como frutas do pé tanto tempo desejadas e agora finalmente colhidas. Ela quase chorava de prazer e antevia no volume da calça aquele pau que vira já em seus sonhos censurados, roçando, pedindo para ser libertado.
Surpreendentemente ela abriu a calça e libertou o pau dele, com ele entre suas mãos ela colocou a calcinha de lado e o apontou para a entrada da grutinha. Muito molhada, num só gesto e ato, abrupto, intenso, único, ele a penetrou de uma única vez. Ela não sentiu dor, estava tomada de prazer. Apoiada na mesa, na altura certa para ser bem comida, os movimentos intensos dele de entrar e sais, cheio de desejo, mais os beijos profundas, as mordidas, as chupadas, iam levando Ana a caminhos que antes ela desconhecera. Perdera o medo, gemia, pela primeira vez na vida um homem a fazia gemer, e a intensidade do prazer que fazia seu corpo tremer já a levara a gritar. Sem cuidados, sem peias, gritaram gozaram juntos. Ela arranhou as costas dele, ele inundou a bocetinha dela. Beijaram. Confidenciaram-se a paixão secreta e foram dormir juntos nesta noite, na casa dele. A vida recomeçou, no dia seguinte e nos outros, diferentes, mais contente, mais intensa, com outro sentido. O sentido do prazer, o sentido do amor, de uma mulher que se realizava com um ser amado, com este ser amado que encontrava nesta mulher um refúgio e um caminho. O pastor da Seita Neuróticos Inimigos do Corpo perdeu uma fiel, posto que Ana aprendera a gozar com todo o desespero e força por todos os poros e buracos de seu ser, enquanto Vinícius recuperara um sentido na sua vida. Um dava sustento para a alegria do outro, fodiam todo o tempo em todos os lugares possíveis, se amavam de forma obscena, proibida e maravilhosa.
Como na música do grande poeta:
"E o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz".
Escrito por John às 15h10
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Valsinha, por Roberto Ponciano
Mais uma nova colaboração no nosso Menu, desta vez de Roberto Ponciano. Aproveitando o embalo do projeto "Nossas Mulheres Buarque", iniciado na última edição do Sarau, o Roberto nos enviou um conto inspirado numa música do Chico Buarque. O perfil do autor, nas palavras do próprio: "Tenho 33 anos, sou fluminense de nascimento (embora flamenguista de coração), fã de Chico, Tom, Vinícius, Milton e Candeia. Viciado em Neruda, Jorge Amado, Lorca, Anatole France. Sou um gris funcionário público... Mas escritor diletante à procura sempre de mais letras para colorir minha vida."
Como se trata de um conto longo, por problemas técnicos terei que postá-lo em duas partes. Abaixo, segue a primeira. Divirtam-se!
Valsinha - parte 1
Todos os dias eram iguais. Trabalhavam juntos no mesmo emprego entediante já fazia sete anos. Eram dois seres humanos murchos, sem graça, grises como as paredes daquele Departamento de Pessoal. Conversavam o essencial, ordens, resoluções, metas, aumento de produtividade, competência, números, cifras, determinações, artigos de lei, parágrafos, alíneas. Carcaças de ser humano ambulantes. Todavia eram jovens. Enterrados naquela vida mesquinha, ambos, esperavam o fim de semana para reificarem suas vidas. Mas tudo parecia ser um ciclo e o tempo se repetir. O domingo era a espera da segunda e a segunda uma corrida louca até o sábado, para depois, no domingo esperar o serviço de segunda. Vinícius tinha uma vida insonsa. Sem cor, sem brilho, sem poesia, sem sentido. Acumulava alguns bens naquela chefia intermediária e fazia dívidas para virar escravo de seus bens. Trabalhava quase 10 horas por dia, durante três horas era escravo da prestação do apartamento, durante duas horas era escravo do carro, mais duas horas de escravidão à prestação dos móveis, celular, aparelho de eletrodoméstico, condomínio, TV a cabo e sobravam duas horas extras para ele trabalhar para o lazer. Na verdade um lazer que era quase um trabalho, programado nos mínimos detalhes, nos locais tumultuados onde as pessoas se estressavam mais do que descansavam, por estarem todas presas na mesma indústria de turismo que exportava engarrafamentos, falta d´água, tumulto de gente nos locais onde se ia "descansar". Na alma ele sentia um imenso vazio, uma tremenda falta de sentido no viver, ele não fruía a vida que fluía.
Ana tinha uma vida sem graça, sem cor, sem brilho, sem poesia, sem sentido. Acumulava alguns bens naquela gerência e fazia dívidas que a tornavam escrava de seus bens. Trabalhava cerca de 10 horas por dia, durante três horas era escrava da prestação do apartamento, durante duas horas era escrava da prestação da casa de campo, mais duas horas de escravidão ao dízimo da igreja, móveis, celular, eletrodomésticos, roupas de grife e sobravam duas horas para ela trabalhar extra e ter uma "reserva". Lazer, não tinha. Sua dedicação a uma seita seca de corpo, que obscurecia a alma e negava os sentidos, não deixava. Sua vida passava na terra à espera de uma vida no além túmulo, prometida por um pastor 171, que enriquecia enganando os fiéis com uma pregação neurótica de deformação da vida. Passavam 10 horas juntos por dia. Mais tempo do que passavam com seus familiares, mais tempo que Vinícius passava com seus amigos, mais tempo do que Ana passava na igreja. Ana era chefe dele e ambos comandavam todo um setor de funcionários, sombrios, tristonhos, sempre preocupados em não perder o emprego e em ter o suficiente para continuar a viverem escravizados por seus bens. Nunca se dando conta de que trabalhavam amordaçados aos bens que em tese deveriam melhorar a vida deles, mas que, no fundo, serviam para fazer com que eles mais tempo perdessem num trabalho sem sentido de números, glosas, retificações que se renovava mês a mês, sempre sem nenhum sentido. Acostumaram-se a presença um do outro. Ana era linda, ainda que evangélica, e que sua religião mortificasse os sentidos, nos seus vestidos longos ainda reverberava alguma alegria e uma ponta de sensualidade. Sempre muito bem vestida, não sorria, nem brincava muito. A sequidão de sua vida amorosa gerava uma mulher que, tirando as ordens que proferia, pouco falava, quase não brincava e nem sorria. No início ela sentiu-se atraída por ele e, quase sem sentir, por muitas vezes deixou-se ficar olhando para ele, examinando o corpo, o peito forte, os braços torneados. Com o tempo, ela mesmo começou a notar esta atração e a reprimiu. A enterrou no fundo da alma, nada mais demonstrou, embora por dentro uma fagulha ainda vivesse muito próxima daquele palheiro que é uma mulher mal amada. Vinícius era mais moleque, ainda sorria e brincava, embora ficasse sério ao lado dela. A beleza dela na verdade o assustava e inibia. Junto a uma beleza de Afrodite, o talhe sério, a forma rígida de ser e executar o serviço da chefe fez com que ele reprimisse o desejo e olhasse para os olhos dela escondendo a atração, quando antes olhava para o início dos seios que discretamente sobravam dos vestidos. Dias iguais, horas iguais. Vidas comuns. Estressado, mortificado, Vinícius num verão qualquer não fez como nas outras férias. Não foi para as praias badaladas da moda, nem para as cidades de veraneio cheias. Em crise, cansado daquela vida, durante vinte dias exilou-se numa pequena casinhola de uma cidadezinha qualquer, levou os velhos CDs do Clube da Esquina e de Bossa Nova, que durante a adolescência gostara tanto, e que, com a juventude, envergonhado, largara de lado para se entregar à moda. Era agora um homem da moda, um homem mais pensamentos próprios, que para estar de bem com os outros não mais se encontrará. Àquela música que antes fizera tanto sentido, que o fazia refletir na vida e buscar um caminho, um canto, um refúgio, um sentido humano, fora abandonada junto com o sentido que ele antes pensara dar a existência. Neste mês, lendo seu xará, o Poetinha amadorado, Vinícius de Moraes, escutando suas músicas, mas as belas músicas existencialistas do Clube da Esquina, começou a tomar pé de uma nova vida. Precisava renascer, precisava recomeçar. Retomar seus projetos, procurar algo que desse sentido a sua existência. Precisava trabalhar, é verdade, pois necessitava comer, mas trabalharia menos e agora se dava conta, por menos coisas. Pela primeira vez vira que ficara escravo das coisas e de coisas que não valiam à pena, pois não contavam nem como alegria nem dor. Ser humano e que conta, e destes, ele havia realmente se afastado. Pois a vida yuppie que levava nada mais era do que estar só no meio da multidão. Que realmente importava? Uma coisa ele sabia. Ana importava. Ele a amava desde a primeira vez que a vira e todos estes anos reprimira este amor para não comprometer seu trabalho e sua posição. Agora, agora FODA-SE! Que se danem os comentários jocosos, a possibilidade de perder o cargo e procurar outro emprego, até o medo de ser rejeitado. Ele iria recomeçar sua vida, e a primeira coisa que faria seria recuperar estes sete anos jogados fora deixando aquela mulher maravilhosa, Afrodite rediviva murchar numa seita escrota que mortificava moralisticamente a carne.
Escrito por John às 15h09
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Madrugada, por Fernando Toledo
Conforme o prometido, segue abaixo mais um dos textos que o Fernando Toledo gentilmente nos enviou. O perfil do autor vocês podem ver no nosso post anterior. Aproveitem! E continuem colaborando com nosso Menu!
Madrugada
No quarto, a luz apagada - somente a lâmpada do poste transmite alguma transparência às cortinas lentamente tremulantes. Faz algum esforço para conseguir ver Rodolfo dormindo: nu, as cobertas amarrotadas ao chão; de bruços, as costas peludas (cata com os olhos os pelos quase invisíveis na quase escuridão) - ele dorme. Nua, ela pega um cigarro na mesa de cabeceira e o acende, estremecendo levemente ao estalo do fósforo - que soa inesperadamente perturbador através da mansidão de suaves e cansadas respirações descompassadas de ambos. Sentada, à beira da cama, traga longamente. Ele dorme, dorme e sonha de forma indevassável, dorme logo após: como sempre - e a fumaça escapa de seus lábios sem ruído. Ergue-se e leva novamente o cigarro aos lábios. À luz do poste. À luz do poste somente. Vai à janela. À luz do poste ela surge para a rua deserta de sua janela no segundo andar às três da madrugada: o cachorro da vizinha da esquerda solta uns latidos para o nada e se cala em seguida. E ela permanece ali, sobre o peitoril da janela, o ar frio fazendo com que sua vagina emitisse súbitos arrepios de calor, que subiam escoiceando pelo interior de sua espinha. Os minutos passam sob as solas gripadas de seus pés, se transformando, aos poucos, em gelatinosas séries de minutos. Os cigarros no cinzeiro à mão, nove guimbas retorcidas - acende outro e pendura-se mais: ergue sua perna esquerda como uma bailarina principiante; vira-se de costas e exibe as nádegas à rua que permanece deserta, abrindo-as pornograficamente com as duas mãos. A luz do sol esfrega-se gradativamente às folhas secas da amendoeira, caídas ao longo da calçada - dentro em pouco terá de varrê-la, Maio é sempre assim. Bem que Rodolfo queria cortar a amendoeira. O despertador: cinco-para-que-toque. Desce do parapeito, apanha a calcinha no chão e a veste. Delicadamente, amorosamente, deita-se de novo à cama, e fecha os olhos. Toca o despertador. Rodolfo, num salto, o trava: - Cacete, já está na hora! E ela abre os olhos: - Já está na hora? Tenho que fazer o café.
FINIS
Escrito por John às 15h34
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Segunda e Terça, por Fernando Toledo
Mais novidades aqui no Menu Livre! O artista de hoje se chama Fernando Toledo e é amigo da Tatinha Marchesan. Ele nos presenteou com nada menos que quatro textos, os quais iremos postar aos poucos. O primeiro, um conto chamado "Segunda e Terça". Logo abaixo, publicamos também um breve perfil do autor, nas palavras do próprio.
E continuem enviando suas colaborações!
Segunda e Terça
Para todos os meus colegas trabalhadores deste mundo que nos trata tão mal
Para meu amigo Carlos Mendes (Lupa), sem o qual este conto não atingiria sua atual versão.
Ele não consegue modificar a posição de seu braço esquerdo: a dormência lambe-lhe carinhosamente os músculos apertados contra o ombro do também mulato; as pernas não existiriam se não doessem tanto; o cheiro de muitos corpos sulfurosamente em suspensão - vontade de vomitar o café da manhã que não teve (o filho da Dona Zefinha morreu de fome ontem, quase que dava pra ver a cor dos ossos espetando a pele escurinha).
Ele sai finalmente do trem e corre, olhando sem parar para o alto: o imenso relógio. O ônibus; precisava correr - difícil de entrar, dentro do ônibus enfim; o vale transporte, a roleta, calma aí, cara; dentro do ônibus; não sai o ônibus; não sai o ônibus; devagar o ônibus; lotada a porra do ônibus; devagar, lerda, essa buceta desse ônibus; devagar, lerda, essa porra dessa buceta desse ônibus (o irmão do seu Haroldo tomou um teco no meio do coco, os miolos pulando que nem os fogos de Ano-Novo); essa merda não chega nunca.
E chega.
Seu corpo acompanha a picareta; esta mergulha na terra teimosa, pesando mais que qualquer coisa no mundo, mais que o mundo até, muito mais que o sol sem peso que escorre em gotas salgadas - do outro lado da rua um casal bebe uísque fosforescente encharcado em ar-condicionado (o Marinho da Dona Estela caiu com um tiro dos home, bala-perdida no meio da ocupação). Ele sorri com a chegada do meio-dia e sorri também da gosma inidentificável que insiste em unir os grãos de arroz na marmita - pelo menos não está fedendo a azedo. E as duas passam deste lado da calçada: a água do mar ainda em gotas brilhantes sobre a pele, as bundas lisas e queimadas em torno dos biquínis cor-de-fubá - você viu o gato?; qual o amigo do Reinaldinho?; tesudérrimo, ele! (a filha do seu Mariano teve uma puta disenteria, cagou, cagou, cagou, se cagou até morrer). E as seis horas tomam a forma de uma sirene altíssima.
Só tem um pouquinho de farinha seu Manuel disse que encerrou tua conta porque você prometeu que essa semana pagava e não pagou ele disse que não dá assim não dá e olha só o arroz já tá acabando e você viu no jornal o leite aumentou de novo hoje eu botei mais água pra ver se dá pra disfarçar mas acaba sendo pior porque aí ele bebe e fica chorando pedindo mais ainda - e ele senta em frente à televisão e sorri porque pelo menos a luz não tem que pagar e também porque um dia vai dar uma cagada na vida e terá um dormitório envernizado e colchões azuis macios e cerveja bem gelada no freezer e um Honda e um vídeo e uma linda morena de coxas firmas e bunda firme e seios firmes e sorriso celestial esperando ansiosamente que ele chegue no condomínio fechado a cinco minutos da praia.
Ao deitar-se ele toca de leve os ombros de sua mulher e sussurra uma pequena risada e mergulha arfando, sem se importar com o cheiro de cebola, num velho colchão de carnes moles e muitas dobras (o Zé, filho da Dona Neusa, se atrasou três vezes no mês passado e foi mandado embora, tá fazendo avião pra galera do movimento pra descolar um qualquer).
Está parado há quarenta minutos. Quarenta e um minutos. Quarenta e dois minutos e alguém força uma porta, e outros seguem-lhe o exemplo, e alguém começa a gritar quebra essa porra, e ele sai pela janela, e alguém lhe entrega uma lata de querosene, e ele grita sai todo mundo de dentro dessa porra (pedras chocam-se contra o metal do trem que reflete o sol sem peso), e alguém grita vambora, taca fogo nessa porra, e ele começa a espalhar o querosene, e muitas pessoas passam correndo, e ele pergunta quem tem um fósforo aí, alguém lhe dá uma caixa, e ele risca um fósforo, e o trem se torna vermelho, um vermelho somente visível através da fumaça negra que sobe e parece gargalhar.
FINIS
"Fernando Toledo é carioca, nascido no ano que não terminou (1968), e, para sobreviver, trabalha com projetos de Estações Meteorológicas. Apesar disso, tem escrito (o que, segundo ele, o impede de ficar completamente louco neste País já tão enlouquecido) e bebido ao longo de toda a sua vida. Quanto à última atividade, nada que mereça nota em seu currículo, além de ser membro da Confraria da cachaça do copo furado, que reúne alguns dos maiores degustadores do Brasil. Quanto à primeira atividade, além de contos e poemas publicados em coletâneas e jornais, escreveu para algumas publicações, sendo que, da maioria, o nome ele não se lembra, mas pode citar 'Letras & Artes' (editado pela Fundação Rio), 'O Patropi', 'O Grito da Zona Oeste', o jornal do Teatro de Arena Elza Osborne, o 'ArenaCult', onde possuía uma coluna mensal, sempre que o jornal conseguia sair. Além disso, foi colaborador d’OPASQUIM21, ainda o é do 'Algo a dizer' e edita, juntamente com Áurea Alves (sua mulher), a coluna Carta Brasílis, no jornal dos imigrantes brasileiros nos E.U.A, o Brazilian Press. Já foi músico, iluminador, sonoplasta, dono de botequim e outras coisas, quase sempre tendo causado a falência dos lugares por que passou. Co-produziu, ao lado de Jorge Mello, a série de apresentações 'As bossas do Garoto', com as canções do exímio compositor e violonista. Atualmente, é presidente da AESP/MPB (Associação dos Escritores, Pesquisadores e Divulgadores de Música Popular Brasileira). Deve ter feito mais alguma coisa que não dá grana, mas não lembra no momento."
Escrito por John às 11h32
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Alma, por Maria Fernanda Ruiz Dalpino
Olá, como eu já havia adiantado lá no Blog do Sarau Expressão Livre, hoje temos um post novo aqui no Menu Livre! A poeta de hoje é minha amiga Maria Fernanda Ruiz Dalpino... Conheço a Mafê há pelo menos dez anos e, ao longo desse tempo, ela já me mostrou alguns de seus textos (excelentes, por sinal), mas ela ainda não se sente totalmente segura... Mas consegui convencê-la a mostrar um pouco de sua arte aqui no Menu. Aproveitem!
Só gostaria de lembrá-los que quem enviar suas contribuições pro nosso cardápio cultural até o final da próxima semana, automaticamente terá seus textos publicados também no Menu Livre que será distribuído ao público na quinta edição do Sarau, que vai rolar no sábado dia 28 de agosto. Então, o que vocês estão esperando?
ALMA
O que é frustração senão a alma aprisionada numa vida ordinária?
O que é medo senão alma estagnada diante dos riscos imprevisíveis desta vida?
O que é solidão senão alma que não encontra resposta?
O que é paz senão a alma repleta?
O que é amor senão a alma completa?
O que é felicidade senão a alma que transborda?
O que somos nós, senão alma contida incontida, esperando e caminhando,
sendo felizes infelizes pela vida sem vida,
E aguardando o destino de todos, que no final é um só?
30/06/2004
Escrito por John às 14h58
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É Tempo de Perder, por Tony Wendell
Mais um post lindo no Blog Menu Livre! Desta vez, o autor é Tony Wendell, poeta, terceiro integrante do Ahimsa, quinto integrante do Plano B e, nas horas vagas, médico formado pela Unisa. Conheci o rapaz através do Barba (eles estudaram juntos na faculdade) e, desde então, tornou-se um grande amigo meu também. Bom, esse poema que o Tony mandou é uma bela homenagem ao nosso amigo Léo Sauaia, o Barba, que em breve irá embarcar para Londres, onde permanecerá durante um ano para estudar. Mesmo quem não conhece o Barbudo certamente já teve que dizer adeus a uma pessoa querida algum dia, então...
É Tempo de Perder
É tempo de perder o calor
O verão se foi e não viu
Veio o outono e trouxe o frio
Com seu céu azul de se perder
E um Sol que não consegue aquecer
É tempo de perder o brilho
As cores aos poucos vão se esvaindo
A alegria sorrateira vai sumindo
O vento não dispersa a poluição
É um cinza que ofusca a visão
É tempo de perder os valores
Os amigos vêm e vão
Como se troca de canal na televisão
Não há partilha, cumplicidade
Só o eterno jogo da possessividade
É tempo de perder a poesia
De esquecer os versos feitos
Que enaltecem belamente os defeitos
Que rimavam o mundo real
Com os monstros lá do fundo do quintal
É tempo de perder a música
Da cadência do tango indecente
Ou do belo jazz reticente
Reflexo da dor ou da alegria
Ritmando bemóis em harmonia
É tempo de perder o amigo
Pois quando a angústia tiver acabando
E a primavera aqui tiver chegando
A alegria desta vez não vai ficar
Pois o outono de lá, vai te levar
por Tony Wendell
para o Barba
Outono no hemisfério sul
Escrito por John às 09h38
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Alta Rotação, por Sandra Cruz
É com prazer que eu posto aqui a primeira colaboração on-line do Blog Menu Livre! A autora é minha amiga Sandra, jornalista formada pela Cásper Líbero, fã dos Beatles e apreciadoa de "música de gay" ("you can dance, you can jive, having the time of your life..." ). Ela mandou esse texto intitulado "Alta Rotação", sobre o qual explica: "Foi uma espécie de exercício que meu professor de redação deu. Era pra descrever algo, em forma de narrativa, sem que se soubesse de imediato o que era. Enfim, um suspensezinho... Espero que seja o primeiro de muitos. Sirvam-se ! Voilá..."
Se depender de nós, será mesmo o primeiro de muitos. Faço minhas as palavras da Sandra: sirvam-se!
Alta Rotação
Neste universo, tudo parece pequeno, menos importante do que é realmente. É como se o mundo coubesse em nossas mãos.
O conjunto, formado por traços irregulares, lembra um quebra-cabeça de milhares de peças. A maioria das peças coloridas, que se encaixam perfeitamente, formando uma coisa só. Há algumas soltas, fixadas apenas na superfície lisa e azul. Tais peças são como imãs de geladeira, que podem ser a qualquer momento arrastadas, num simples toque.
Uma sopa de letras e números se perde naquela imensidão de cores. Linhas verticais e horizontais formam um tabuleiro gigantesco.
No tabuleiro, linhas finíssimas são como artérias, que correm por toda aquela superfície, ao mesmo tempo frágil e misteriosa.
As peças maiores são amarelas e cor-de-rosa. O branco enigmático domina os extremos.
Olhando de longe, blocos de peças num fundo azul são como nuvens. As quais podemos ver, abstrair e imaginar objetos, animais e pessoas. É possível ver um chifre, uma bota, um jacaré, um lagarto. Tudo depende da imaginação. Podemos até viajar!
É fascinante concluir que, com um lampejo de olhar, podemos ir de Ushuaia* até a Micronésia.
É difícil entender, porém, as diferenças de cada pecinha, ou melhor, de cada país. Um mundo que no atlas parece tão sereno está inquieto. Um mundo de pretos, brancos, amarelos.
*Ushuaia fica no extremo sul da Argentina.
Sandra Cruz
Algum dia de 2003...
Escrito por John às 18h16
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"Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas."
ESTREAMOS!!!!!
É gente, aqui estamos, com mais uma grande novidade no "universo" Expressão Livre... Vamos às explicações.
Uma das coisas que eu e a Tatinha mais amamos no SEL é a possibilidade de abrir espaço, de dar oportunidade a alguém que nunca havia mostrado sua manifestação artística em público antes. É dar um empurrãozinho pra aquela pessoa que canta no chuveiro, que escreve poemas, que brinca de atriz de cinema escondida...
Então, desde o começo, a gente tenta fazer isso de todas as maneiras possíveis. Um dos nossos xodós é o Menu Livre. É uma espécie de "cardápio cultural" no qual quem dá a receita é você. Como? Deixando a gente mostrar pra todo mundo a sua arte!
Antes, o Menu Livre era um caderninho que ficava nas mesas do Sarau. Agora, como o Blog do Expressão Livre tem se mostrado bastante popular entre o nosso público e o nosso círculo de artistas, resolvemos trazê-lo também para o mundinho virtual.
Então, é bem simples! Se você tem aí guardado algum poema, texto, crônica, letra de música ou qualquer outra coisa, por menor que seja (ou por menor que você ACHA que seja), mande pra gente publicar aqui no Menu Livre! É só enviar um e-mail para este que vos escreve (danielfuruno@hotmail.com), juntamente com um breve histórico seu. Não existe censura e nem critério de avaliação, o que chegar a gente publica!
Neste primeiro post, como ainda não há colaborações, resolvi colocar um poema do Drummond, cuja última estrofe estampou a camiseta que eu e Tatinha usamos na terceira edição do SEL. Por que? Porque música e literatura têm tuuuuuudo a ver com o Expressão Livre. E porque Drummond é tuuuuuuuuudo!
Estamos esperando seus versos!
Canção Amiga (por Carlos Drummond de Andrade)
Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua que passa em muitos países. Se não me vêem, eu vejo e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. No jeito mais natural dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.
Escrito por John às 16h00
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