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Segunda e Terça, por Fernando Toledo

Mais novidades aqui no Menu Livre! O artista de hoje se chama Fernando Toledo e é amigo da Tatinha Marchesan. Ele nos presenteou com nada menos que quatro textos, os quais iremos postar aos poucos. O primeiro, um conto chamado "Segunda e Terça". Logo abaixo, publicamos também um breve perfil do autor, nas palavras do próprio.

E continuem enviando suas colaborações!

Segunda e Terça

Para todos os meus colegas trabalhadores deste mundo que nos trata tão mal

Para meu amigo Carlos Mendes (Lupa), sem o qual este conto não atingiria sua atual versão.

Ele não consegue modificar a posição de seu braço esquerdo: a dormência lambe-lhe carinhosamente os músculos apertados contra o ombro do também mulato; as pernas não existiriam se não doessem tanto; o cheiro de muitos corpos sulfurosamente em suspensão - vontade de vomitar o café da manhã que não teve (o filho da Dona Zefinha morreu de fome ontem, quase que dava pra ver a cor dos ossos espetando a pele escurinha).

Ele sai finalmente do trem e corre, olhando sem parar para o alto: o imenso relógio. O ônibus; precisava correr - difícil de entrar, dentro do ônibus enfim; o vale transporte, a roleta, calma aí, cara; dentro do ônibus; não sai o ônibus; não sai o ônibus; devagar o ônibus; lotada a porra do ônibus; devagar, lerda, essa buceta desse ônibus; devagar, lerda, essa porra dessa buceta desse ônibus (o irmão do seu Haroldo tomou um teco no meio do coco, os miolos pulando que nem os fogos de Ano-Novo); essa merda não chega nunca.

E chega.

Seu corpo acompanha a picareta; esta mergulha na terra teimosa, pesando mais que qualquer coisa no mundo, mais que o mundo até, muito mais que o sol sem peso que escorre em gotas salgadas - do outro lado da rua um casal bebe uísque fosforescente encharcado em ar-condicionado (o Marinho da Dona Estela caiu com um tiro dos home, bala-perdida no meio da ocupação). Ele sorri com a chegada do meio-dia e sorri também da gosma inidentificável que insiste em unir os grãos de arroz na marmita - pelo menos não está fedendo a azedo. E as duas passam deste lado da calçada: a água do mar ainda em gotas brilhantes sobre a pele, as bundas lisas e queimadas em torno dos biquínis cor-de-fubá - você viu o gato?; qual o amigo do Reinaldinho?; tesudérrimo, ele! (a filha do seu Mariano teve uma puta disenteria, cagou, cagou, cagou, se cagou até morrer). E as seis horas tomam a forma de uma sirene altíssima.

Só tem um pouquinho de farinha seu Manuel disse que encerrou tua conta porque você prometeu que essa semana pagava e não pagou ele disse que não dá assim não dá e olha só o arroz já tá acabando e você viu no jornal o leite aumentou de novo hoje eu botei mais água pra ver se dá pra disfarçar mas acaba sendo pior porque aí ele bebe e fica chorando pedindo mais ainda - e ele senta em frente à televisão e sorri porque pelo menos a luz não tem que pagar e também porque um dia vai dar uma cagada na vida e terá um dormitório envernizado e colchões azuis macios e cerveja bem gelada no freezer e um Honda e um vídeo e uma linda morena de coxas firmas e bunda firme e seios firmes e sorriso celestial esperando ansiosamente que ele chegue no condomínio fechado a cinco minutos da praia.

Ao deitar-se ele toca de leve os ombros de sua mulher e sussurra uma pequena risada e mergulha arfando, sem se importar com o cheiro de cebola, num velho colchão de carnes moles e muitas dobras (o Zé, filho da Dona Neusa, se atrasou três vezes no mês passado e foi mandado embora, tá fazendo avião pra galera do movimento pra descolar um qualquer).

Está parado há quarenta minutos. Quarenta e um minutos. Quarenta e dois minutos e alguém força uma porta, e outros seguem-lhe o exemplo, e alguém começa a gritar quebra essa porra, e ele sai pela janela, e alguém lhe entrega uma lata de querosene, e ele grita sai todo mundo de dentro dessa porra (pedras chocam-se contra o metal do trem que reflete o sol sem peso), e alguém grita vambora, taca fogo nessa porra, e ele começa a espalhar o querosene, e muitas pessoas passam correndo, e ele pergunta quem tem um fósforo aí, alguém lhe dá uma caixa, e ele risca um fósforo, e o trem se torna vermelho, um vermelho somente visível através da fumaça negra que sobe e parece gargalhar.

FINIS

"Fernando Toledo é carioca, nascido no ano que não terminou (1968), e, para sobreviver, trabalha com projetos de Estações Meteorológicas. Apesar disso, tem escrito (o que, segundo ele, o impede de ficar completamente louco neste País já tão enlouquecido) e bebido ao longo de toda a sua vida. Quanto à última atividade, nada que mereça nota em seu currículo, além de ser membro da Confraria da cachaça do copo furado, que reúne alguns dos maiores degustadores do Brasil. Quanto à primeira atividade, além de contos e poemas publicados em coletâneas e jornais, escreveu para algumas publicações, sendo que, da maioria, o nome ele não se lembra, mas pode citar 'Letras & Artes' (editado pela Fundação Rio), 'O Patropi', 'O Grito da Zona Oeste', o jornal do Teatro de Arena Elza Osborne, o 'ArenaCult', onde possuía uma coluna mensal, sempre que o jornal conseguia sair. Além disso, foi colaborador d’OPASQUIM21, ainda o é do 'Algo a dizer' e edita, juntamente com Áurea Alves (sua mulher), a coluna Carta Brasílis, no jornal dos imigrantes brasileiros nos E.U.A, o Brazilian Press. Já foi músico, iluminador, sonoplasta, dono de botequim e outras coisas, quase sempre tendo causado a falência dos lugares por que passou. Co-produziu, ao lado de Jorge Mello, a série de apresentações 'As bossas do Garoto', com as canções do exímio compositor e violonista. Atualmente, é presidente da AESP/MPB (Associação dos Escritores, Pesquisadores e Divulgadores de Música Popular Brasileira). Deve ter feito mais alguma coisa que não dá grana, mas não lembra no momento."



Escrito por John às 11h32
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