Madrugada, por Fernando Toledo
Conforme o prometido, segue abaixo mais um dos textos que o Fernando Toledo gentilmente nos enviou. O perfil do autor vocês podem ver no nosso post anterior. Aproveitem! E continuem colaborando com nosso Menu!
Madrugada
No quarto, a luz apagada - somente a lâmpada do poste transmite alguma transparência às cortinas lentamente tremulantes. Faz algum esforço para conseguir ver Rodolfo dormindo: nu, as cobertas amarrotadas ao chão; de bruços, as costas peludas (cata com os olhos os pelos quase invisíveis na quase escuridão) - ele dorme. Nua, ela pega um cigarro na mesa de cabeceira e o acende, estremecendo levemente ao estalo do fósforo - que soa inesperadamente perturbador através da mansidão de suaves e cansadas respirações descompassadas de ambos. Sentada, à beira da cama, traga longamente. Ele dorme, dorme e sonha de forma indevassável, dorme logo após: como sempre - e a fumaça escapa de seus lábios sem ruído. Ergue-se e leva novamente o cigarro aos lábios. À luz do poste. À luz do poste somente. Vai à janela. À luz do poste ela surge para a rua deserta de sua janela no segundo andar às três da madrugada: o cachorro da vizinha da esquerda solta uns latidos para o nada e se cala em seguida. E ela permanece ali, sobre o peitoril da janela, o ar frio fazendo com que sua vagina emitisse súbitos arrepios de calor, que subiam escoiceando pelo interior de sua espinha. Os minutos passam sob as solas gripadas de seus pés, se transformando, aos poucos, em gelatinosas séries de minutos. Os cigarros no cinzeiro à mão, nove guimbas retorcidas - acende outro e pendura-se mais: ergue sua perna esquerda como uma bailarina principiante; vira-se de costas e exibe as nádegas à rua que permanece deserta, abrindo-as pornograficamente com as duas mãos. A luz do sol esfrega-se gradativamente às folhas secas da amendoeira, caídas ao longo da calçada - dentro em pouco terá de varrê-la, Maio é sempre assim. Bem que Rodolfo queria cortar a amendoeira. O despertador: cinco-para-que-toque. Desce do parapeito, apanha a calcinha no chão e a veste. Delicadamente, amorosamente, deita-se de novo à cama, e fecha os olhos. Toca o despertador. Rodolfo, num salto, o trava: - Cacete, já está na hora! E ela abre os olhos: - Já está na hora? Tenho que fazer o café.
FINIS
Escrito por John às 15h34
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